Rodrigo Constantino
Análises de um liberal sem medo da polêmica07/05/2014
Não é de hoje que as nossas instituições gozam de pouca credibilidade. O
tema é batido: a justiça é lenta e falha, os políticos são corruptos, a polícia
abusa do poder. Dito isso, e parafraseando um famoso metalúrgico, nunca antes
na história deste país se viu um clima de tanta desesperança com nossas
instituições e nosso futuro. O metalúrgico tem boa parcela de culpa.
Não, o PT não inventou nada disso, e os problemas nacionais não
começaram em 2003 com Lula. Mas os petistas são responsáveis, sim, pelo agravamento
da situação. Ao colocar as expectativas de muitos lá em cima, após décadas
monopolizando a bandeira da ética na política, e ao se mostrar simplesmente o
mais cínico e corrupto de todos os partidos, o PT colaborou muito para o
esgarçamento social completo. O editorial do GLOBO de
hoje concorda:
Há
uma séria questão nisso tudo que é a percepção popular — mesmo que não seja
verbalizada por todos — da falência de instituições. A situação se agrava com o
péssimo exemplo dado por partidos políticos, do PT ao PSDB, pelo envolvimento
de correligionários em casos de corrupção.O mau exemplo do PT chega a ser
mais daninho, por ter conquistado o poder com a aura de extrema seriedade e
honestidade. Ao trair as promessas de defesa intransigente da ética, dá grande
contribuição, infelizmente, ao descrédito da população diante dos poderes
constituídos. Não há culpado único por todo este drama social.
Após o escândalo do mensalão, abriram-se as comportas do cinismo e
passou a valer tudo para se perpetuar no poder. É verdade que os eleitores têm
culpa também. Dizem que cada povo tem o governo que merece. Pode ser. E eu
mesmo apontei várias vezes o dedo para as escolhas que
estavam sendo feitas, desprezando-se totalmente as questões éticas. Quando
Dilma foi eleita, mesmo após claro abuso da máquina estatal em uma “democracia
suja”, escrevi no GLOBO:
O
dia 2 de novembro foi escolhido como data oficial para a homenagem aos mortos.
Gostaria de prestar aqui minha homenagem ao mais recente defunto brasileiro: a
Ética. Seu falecimento gerou profunda tristeza em milhões de brasileiros. Não
foi morte acidental, mas homicídio. Cinqüenta e cinco milhões de brasileiros
executaram a Ética a queima-roupa, no dia 31 de outubro. As armas usadas: as
urnas.
Em sua coluna desta
terça, Arnaldo Jabor escreveu talvez seu melhor artigo dos últimos anos, ao
fazer um diagnóstico dos motivos pelos quais o Brasil “está com ódio de si
mesmo”. O país, por meio da maioria dos eleitores, acabou trilhando um caminho
que nos trouxe até aqui, em meio a esse clima de anomia, de desesperança, de
raiva, intolerância e ódio. Ele diz:
O
Brasil está irreconhecível. Nunca pensei que a incompetência casada com
o delírio ideológico promoveria este caos. Há uma mutação histórica em
andamento. Não é uma fase transitória; nos últimos 12 anos, os donos do poder
estão a criar um sinistro “espírito do tempo” que talvez seja irreversível. A
velha “esquerda” sempre foi um sarapatel de populismo, getulismo tardio,
leninismo de galinheiro e agora um desenvolvimentismo fora de época. A
velha “direita”, o atraso feudal de nossos patrimonialistas, sempre loteou o
Estado pelos interesses oligárquicos.
A
chegada do PT ao governo reuniu em frente única os dois desvios : a aliança das
oligarquias com o patrimonialismo do Estado petista. Foi o pior cenário para o
retrocesso a que assistimos.
Invocando a profecia de Lévi-Strauss, Jabor alerta que podemos chegar a
barbárie sem conhecer a civilização. Junto ao clima de ódio, há a mentalidade
fatalista sendo alimentada, aquela que afirma a inevitabilidade de nossa
desgraça. Recebo muitas mensagens de leitores com esse tom, alegando que só
resta ir embora, e o último que sair que apague a luz. É a morte de qualquer
esperança, a última que morre – e com boa razão: sem ela, o que resta? O
niilismo, o caos!
O Brasil mergulhou com o PT na era do maniqueísmo também: tudo se resume
ao “nós contra eles”. Toda crítica construtiva ao governo foi tratada como
ataque de um inimigo da nação. A imprensa, que mostrava os escândalos, trazendo
luz como detergente das impurezas, era tratada como “partido de oposição”, uma
“mídia conservadora e golpista”.
O PT conseguiu o impensável: em véspera de Copa do Mundo, que será
realizada no Brasil, nunca se viu um clima de tanta indiferença. Não há ruas
pintadas, bandeiras penduradas, mascotes, nem mesmo febre de álbum de
figurinhas, apesar de toda a campanha. Há a indiferença, ou mesmo a incerteza
diante de várias ameaças de protestos e manifestações. O PT levou tão adiante o
“pão & circo” que o tiro saiu pela culatra e o povo cansou. Jabor conclui:
E o
pior é que, por trás da cultura do crime e da corrupção, consolida-se a cultura
da mentira, do bolivarianismo, da preguiça incompetente e da irresponsabilidade
pública.
O
Brasil está sofrendo uma mutação gravíssima, e nossas cabeças também. É
preciso tirar do poder esses caras que se julgam os “sujeitos da história”. Até
que são mesmo, só que de uma história suja e calamitosa.
Não há como
discordar. O Brasil precisa resgatar alguma esperança no futuro, acreditar que
um país desenvolvido se constrói solidificando as instituições republicanas, e
que isso depende de nós, pois nada em nossos genes nos impede disso. É preciso
dizer não ao fatalismo derrotista. É preciso enfrentar a ameaça com coragem e
derrotá-la.
Muitos, com razão,
consideram as próximas eleições talvez a última chance de virar o jogo. Caso
contrário, a Venezuela vem aí. Vamos aceitar isso passivamente? Ou vamos arregaçar
as mangas e lutar para salvar nossa democracia?
Segue, para quem
não viu ainda, a homenagem que fiz a todos aqueles que não desistiram e
pretendem lutar pela liberdade:
"Os venezuelanos tiveram que perder a liberdade para descobrir que a amavam.
Os argentinos tiveram que perder a liberdade para descobrir que a amavam.

Nenhum comentário:
Postar um comentário