Por Francisco Vianna
Muita gente pensa que o nosso país vizinho do sudoeste, o Paraguai, é apenas um pequeno território dedicado a vende muamba aos 'sacoleiros' brasileiros, quase tudo feita de produtos falsificados, paraíso dos contrabandistas de Brasil e Argentina, e local onde se esquentam documentos de carros roubados no nosso país.
Pode
até já ter sido, mas está deixando celeremente de ser. Tudo começou no grande
exemplo de cidadania, civilidade, e força de suas instituições democráticas,
quando do impeachment do ex-Presidente e ex-bispo Fernando Lugo, por
incapacidade administrativa – como previsto na Constituição guarani, mas não
na nossa, infelizmente – e que tinha filhos não assumidos pelo país afora.
Esse
mesmo Paraguai que, para ser derrotado numa guerra contra o Brasil, foi
preciso uma tríplice aliança de Uruguai, Argentina e Brasil e ainda uma ajuda
crucial dos Estados Unidos, para dobrar a ganância de conquista territorial
de Solano López, e com quem hoje compartilhamos a eletricidade de Itaipú,
mesmo que esse nosso vizinho não tenha posto um centavo sequer na construção
da hidrelétrica, enfim, esse pequeno vizinho está a dar-nos uma bela lição de
cidadania, de civismo e de capacidade de reação ante aos privilégios que
garantem a impunidade de políticos corruptos, tanto lá como aqui.
Nossos
dois países se localizam numa região deste mundo onde os exemplos de
democracia são os piores do planeta, fato pelo qual muitos a chamam
pejorativamente de "América latrina", e onde a maioria dos países
está praguejada com governos messiânicos, populistas e demagógicos e que
tenta se eternizar no poder das formas as mais decadentes ao enfraquecer
ainda mais as instituições da democracia visando regimes autoritários.
Pois
bem, no Paraguai, surgiu um vento de esperança de mudar isso que consistiu
numa ideia brilhante! Na semana passada, embalados pelas redes sociais, a
sociedade civil paraguaia decidiu iniciar um inédito protesto. Aconteceu que
23 congressistas votaram contra a perda de imunidade parlamentar do senador
Victor Borgado, que fora denunciado pela justiça por contratar, com dinheiro
público, uma babá para os seus filhos.
Já sei.
Todos, a essa altura, devem estar dizendo: "E daí?", uma vez que
essa "corrupçãozinha" é corriqueira por aqui, onde temos visto
coisas muito mais cabeludas e graves ocorrerem tão frequentemente que já
causam uma perda da capacidade de o brasileiro se indignar e protestar. Entre
tais coisas temos, por exemplo, o pagamento de pensão para filho da amante de
deputado, a mesada para parlamentares votarem com o governo – o chamado
mensalão –, das despesas ilimitadas com cartão de crédito dito
"corporativo" para família de presidente e até alguns apaniguados,
de gasolina de helicóptero que traficava cocaína e tapioca para ministro, de
passagens aéreas para congressistas viajarem de férias dando caronas a sogra
de governador, para amiga de presidente e otras cositas más.
Mas
voltando ao caso da "babá de ouro" paraguaia, o desfecho, que ficou
conhecido como el caso Borgado , abriu um vasto panorama para uma reação por
parte da opinião pública, caso o povo tenha ainda uma mínima capacidade de
indignação.
O caso
evoluiu da seguinte maneira: pelas redes sociais, os paraguaios começaram uma
onda de protestos bem humorados. Tudo na base da gozação, pelo menos no
início. Através do Facebook e de um aplicativo de celular chamado, ¿Quién me
voy a escrachar hoy? (Quem vou escrachar hoje?), com fotos e detalhes dos
lugares frequentados pelos 23 defensores da imunidade que gera a impunidade
dos parlamentares, ajudava as pessoas a identificá-los onde quer que
aparecessem em público.
Aí
começou uma perseguição que foi se multiplicando, fazendo com que cada um
deles fosse hostilizado e enxotado dos ambientes onde apareciam sob gritos de
"fora ladrão!" e outros mais ofensivos ainda.
A coisa
culminou com a expulsão raivosa de uma senadora de dentro de um dos salões de
beleza Rommy, frequentado por socialites de Assunção, e que foi o estopim –
que fez com que, aos berros e xingamentos, ela fosse enxotada do local, com o
cabelo ainda coberto de tintura e o rosto emplastrado de creme – que ampliou
como bola de neve o "movimento do escracho" – ou seja, de
xingamentos e gritaria diante dos políticos em ambiente publico.
Nada
menos que duzentos e poucos estabelecimentos comerciais aderiram à campanha,
de restaurante a pet shop, e proibiram a entrada desses 23 congressistas que
protegeram o colega corrupto, votando contra a perda da sua imunidade.
A vida
desses 'nobres representantes do povo paraguaio' virou um inferno e,
execrados e perseguidos quando fora de casa ou do Congresso, eles tiveram que
ceder. Voltaram atrás e acabaram com a imunidade parlamentar do "senador
da babá de ouro".
Golaço!
Os políticos corruptos sofreram uma goleada mais humilhante do que a sofrida
pela seleção 'canarinho' para a Alemanha na copa do mundo.
Simples
assim, como a estória do Ovo de Colombo, que agora foi colocado de novo na
vertical, em Assunção e outras cidades do país!
Um dos
organizadores do movimento pelo Facebook disse que "a partir desse
episódio, aprendemos como combater a corrupção política de forma direta e
altamente eficiente, mesmo que eventualmente uma ou outra injustiça possa ser
cometida, coisa que podemos contornar com um pedido público de desculpas. Mas
não há desculpas que satisfaçam o povo pela corrupção impune. A vida dos
corruptos no nosso país jamais será a mesma".
Pelo
menos, no Paraguai, ficou uma certeza de que acabou a triste sensação de
impotência do povo ao se sentir roubado, enganado e, ainda, ver esses
pilantras a rir com suas caras de pau das pessoas de bem e honestas, com
deboche e cinismo.
Imaginem,
agora, o brasileiro passando a fazer o mesmo por aqui, em todos os lugares
públicos e ainda em mais um que os paraguaios não contam, a praia. O
"achincalhe" geral e ostensivo, em vós alta, pode ser a saída para
disciplinarmos nossos políticos e pormos fim a clepto-corruptocracia que nos
impõem através do aparelhamento "sucialista" das nossas ainda
frágeis instituições democráticas.
Sem
qualquer falsificação, digo que devemos "contrabandear" essa ideia
de lá. Isso é muito mais eficiente e autêntico que a fajutice socialista da
"democracia direta" pretendida pela presidANTA para a sovietização
do Brasil. Quem disse que não temos nada a aprender com países como Honduras
e Paraguai?
Obrigado
Paraguai por mais essa pequena grande lição!
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http://www.emdireitabrasil.com.br/index.php/diversos/785-paraguai-da-exemplo-de-eficiente-de-democracia-direta.html
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